8 de março: Ontem e hoje um dia de luta pela emancipação das mulheres e não de flores

Data remonta as mulheres grevistas de Petrogrado de 1917 e a resistência continua.

Mais um 8 de março. Momento importante para relembrar e continuar a luta pelos direitos das mulheres, mas não só. Em geral a história que ouvimos sobre a origem de desta data internacional é de que mulheres haveriam sido mortas queimadas em uma fábrica têxtil nos Estados Unidos. Porém o que originou todos os anos mulheres do mundo inteiro saírem as ruas reivindicando direitos e denunciando abusos tem haver com processo que mudou radicalmente a vida de mulheres e homens. Saber a nossa história nos dá patamar importante para a continuidade das nossas lutas atualmente.

Em “As origens e a Comemoração do Dia Internacional das Mulheres”, Ana Isabel Álvarez González, traça uma linha demonstrando a importância das mulheres têxteis estadunidenses no processo de luta internacional das mulheres trabalhadoras por seus direitos, mas ao mesmo tempo apresenta comprovações históricas de que não há registros de incêndios em fábricas têxteis em Nova Iorque no 8 de março de 1857. Na verdade, o apontamento para haver um dia de luta das mulheres foi aprovado em 1910 na II Conferência das Mulheres Socialistas que haveria de se organizar nos países um dia de luta pelos direitos das mulheres, porém não houve uma deliberação de haver um dia unificado internacionalmente.

Estabelecer o 8 de março como uma data internacional de referência da luta das mulheres só aconteceu após 1917. Mas por quê? Ora, em 23 de fevereiro do calendário russo (8 de março do nosso) as mulheres tecelãs e costureiras de Petrogrado definem em seus locais de organização de base, contrariando inclusive a direção do Partido Bolchevique, que iriam iniciar uma greve e saíram as ruas reivindicando “Pão e Paz”. A greve iniciada em Petrogrado se espalha pelo império czarista, iniciando assim o que ficou conhecida como “Revolução de Fevereiro” processo fundamental para desencadear os 10 dias que abalaram o mundo em outubro de 1917: a Revolução Russa.

Resgatar nossa história é fundamental, há décadas o capitalismo entrou de forma dura na disputa do simbólico do 8 de março. Nossa data não é data para receber flores ou celebração. Esse é um dia de resistência e de muita luta. Luta esta que nos garantiu direitos importantes até agora, mas que precisamos ter consciência do momento em que vivemos. Vivemos ataques frontais aos direitos conquistados pela luta das mulheres. Precisamos mais do que nunca colocar em pauta sem medo e com contundência as reivindicações históricas das feministas para dialogar com toda uma geração que vem se formando nos últimos anos.

O 8 de março para fazer jus a sua história de luta contra o feudalismo czarista, pela garantia de direitos das mulheres trabalhadoras russas e emancipação de toda uma população precisa demonstrar o quanto o movimento feminista e socialista está profundamente conectado com as demandas de uma forma interseccional. Ou seja, a compreensão do que significa o processo de organização e debates apresentados pelas feministas negras e transfeministas nos últimos anos é uma das coisas que nos localiza de volta ao que simboliza este dia para nós.

Para além das disputas de concepção que necessitam ser feitas para enfrentarmos a luta pelo simbólico do nosso dia, é necessário olhar para o concreto que atinge a vida das mulheres nesse exato momento em nosso país. A epidemia de Zika Vírus, por exemplo, abre uma janela importante para retomarmos com força o debate geral da defesa da legalização do aborta de forma universal. Pois o problema da mortalidade materna derivada de abortos inseguros e ilegais é antigo e precisamos aproveitar esse momento para assegurar o direito de todas as pessoas, seja por quais meios conseguirmos fazer o Estado se responsabilizar e garantir o aborto legal, seguro e gratuito.

Temos que ir as ruas como as camaradas valorosas do “Movimento Custo de Vida” o fizeram durante o período da Ditadura Empresarial-Militar para denunciar a carestia e o processo de crise que influenciava diretamente a vida delas devido a alta constante dos preços em açougues, supermercados e mercearias. Nesse momento o ajuste fiscal impõe a nós que paguemos por uma crise que as mulheres brasileiras muitas vezes já gritaram que não fariam durante não apenas a ditadura militar, mas também o estado democrático de direito.

Por fim e, talvez, o mais importante seja a defesa intransigente do direito das mulheres, mas não só, de se organizar politicamente e ir as ruas quando e como acharem necessário defender seus direitos sem serem ameaçadas pela Lei de Segurança Nacional – um dos resquícios da ditadura que ainda rege nossas vidas – e a Lei antiterror, esta última um ataque direto por parte do governo Dilma e da direita a tudo que o movimento social e a esquerda brasileira construíram e repudiaram, no mínimo, nos últimos 40 anos.

São mais de 100 anos da nossa luta. Mais de 100 anos de 8 de março e, assim como nossas antepassadas, não podemos e nem iremos baixar nossa cabeça para qualquer ataque direto a luta das mulheres feministas, trabalhadoras, negras, LBTs e indígenas.


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