São Paulo pras minas: a cidade em movimento

Para 99% dos paulistanos a vida em nossa cidade não está nada fácil. Viver por aqui virou sinônimo de poluição, trânsito e enchentes. Preços absurdos para viver, sobreviver e se divertir. A situação para quem vive do trabalho, ou ainda para aqueles que vivem a sua margem, é quase impraticável.

Se o quadro geral da vida na cidade é alarmante, quando observamos realidades específicas, a vida em SP é ainda mais cruel. Vejamos o exemplo das mulheres: as tarifas de ônibus e metrô pesam igualmente no bolso de todos, mas são somente as mulheres que pagam duplamente pelo preço abusivo nos transportes por, na maioria das vezes, terem que tirar de sua própria fonte de renda o dinheiro para levar os filhos nas escolas e hospitais e, ainda, são as mulheres que são obrigadas a enfrentar a duríssima e cotidiana situação de assédio nos ônibus e vagões; a precarização das escolas públicas recai sobre todos aqueles que dependem desse serviço público, mas atinge em maior grau as mulheres quando se proíbe a discussão de gênero nas escolas ou quando seguimos tendo um déficit gigantesco de vagas em creches; a precarização do trabalho é uma face da realidade paulistana, mas ainda são as mulheres que recebem em média 70% a menos que os homens e, ao mesmo tempo, são elas que realizam os trabalhos não remunerados e nada valorizados na nossa sociedade, como o trabalho doméstico e de cuidado, após o expediente. As mulheres negras, além de ficarem no “último lugar na fila” – recebem menos que os homens e menos que as mulheres brancas - ainda enfrentam a realidade de seus corpos fetichizados e sua cultura desrespeitada, quando não apropriada por interesses capitalistas.

Como vemos, ser mulher em SP não é nada fácil. Porém quando se é mulher e LBTT as coisas se tornam ainda mais difíceis. Ser mulher transexual em São Paulo é um ato cotidiano de luta e sobrevivência. A discriminação no mercado de trabalho é tamanha que muitas vezes o único caminho que resta é o da prostituição; caminhar nas ruas, que deveria ser um direito, acaba virando um pesadelo quando, dia após dia, são vítimas de violências e agressões. Ser lésbica ou bissexual em São Paulo é também igualmente difícil. Ao passo que os sistemas de educação e saúde desconsideram as especificidades de sua sexualidade, o machismo a torna um fetiche, como se o único direito da mulher lésbica ou bissexual em SP fosse o de ser objeto de desejo e luxúria dos homens heterossexuais.

As grandes cidades se tornaram o grande espelho da desigualdade gerada pelo capitalismo. São os 99% contra 1%. E mais: a desigualdade não é um grande bloco equânime – tem diversas faces e níveis. Tem cara, tem cor, tem raça, tem gênero. A forma como a cidade é organizada, expulsando os mais pobres para a periferia, proibindo os espaços de lazer, não oferecendo restaurantes e lavanderias públicas e criando situações de vulnerabilidade para as mulheres andarem nas ruas fazem com que a própria cidade seja produtora e reprodutora das desigualdades de gênero existentes, e pensarmos propostas para transformarmos esta forma de organização é central para combatermos o machismo.

Portanto, a ideia da campanha “SP pras minas” é o pensar em uma nova cidade, que funcione não mais pela lógica do lucro, mais sim de direitos.

É o compreender que a face da desigualdade é ainda mais nefasta para as mulheres, e o nosso comprometimento tem que estar à altura do desafio enfrentado. Não basta apenas o empenho das mulheres, é preciso somar a força da juventude, trabalhadores e marginalizados, para colocar a cidade em disputa.

Debates, conversas, atos e ações contra a retirada de direitos sociais (em especial das mulheres) pelos governos é o nosso início. Temos que criar uma rede onde as mulheres das diferentes regiões da cidade, raças, orientações sexuais e idades possam se conhecer e pensar conjuntamente propostas para termos uma São Paulo que nos empodere ao invés de nos oprimir e isso só será feito a partir do nosso pensamento e ação coletiva.

Somente a cidade em movimento será capaz de abrir espaço para uma “SP pras minas”.


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